Soltar não é ligar o foda-se: é aprender a olhar com clareza
DESPERTARCONSCIÊNCIAAUTOCONHECIMENTO
2/4/20262 min read


Soltar não é ligar o foda-se: é aprender a olhar com clareza
Existe uma confusão silenciosa acontecendo por aí.
Chamamos de “soltar” aquilo que, muitas vezes, é apenas desistir de sentir.
Chamamos de “força” aquilo que, por dentro, ainda é reação.
E chamamos de “amor-próprio” atitudes que nascem mais do cansaço do que da consciência.
Soltar não é endurecer.
Soltar não é fechar o peito.
E definitivamente, soltar não é “ligar o foda-se”.
Quando tomamos posse da nossa força — aquela força que nasce depois de muita dor, muita queda e muito silêncio — é comum que a gente se perca um pouco. Como quem descobre um músculo novo e sai contraindo sem perceber. A coragem chega… mas a clareza ainda não acompanhou.
E aí a gente começa a usar a força como defesa.
Como escudo.
Como muro.
Do ponto de vista da ciência, isso faz sentido. O nosso cérebro aprende por sobrevivência. Depois de experiências emocionais intensas, o sistema nervoso entra em estado de proteção. A amígdala cerebral — responsável por detectar ameaças — fica mais vigilante. E, nesse estado, reagir parece mais seguro do que sentir.
Reagir dá a falsa sensação de controle.
Clareza, não.
Já a clareza exige pausa. Exige integração entre emoção e razão. Envolve o córtex pré-frontal — a parte do cérebro responsável por decisões conscientes, empatia e autorregulação. É ali que nasce a força que não machuca. A força que escolhe. A força que sustenta limites sem agressividade.
Na espiritualidade, isso também é um ponto delicado. Muitos confundem desapego com indiferença. Mas o verdadeiro soltar não vem do afastamento do coração — vem da expansão dele.
Soltar, espiritualmente, não é se tornar inacessível.
É se tornar inteiro.
É olhar para uma situação e conseguir dizer:
“Isso não é meu” — sem raiva.
“Isso não me serve” — sem desprezo.
“Isso dói” — sem precisar ferir de volta.
Quando falta clareza, a gente vê o mundo com lentes embaçadas pelas próprias feridas. E aí até a força vira desequilíbrio. Até a coragem vira impulsividade. Até a liberdade vira isolamento.
Ver com amor não é romantizar a realidade.
É enxergá-la como ela é — sem negar, sem endurecer, sem fugir.
Amor, nesse contexto, não é emoção. É qualidade de presença.
É a capacidade de sustentar a própria verdade sem precisar gritar.
É manter o coração aberto mesmo quando a decisão é firme.
A maturidade emocional — tão falada e tão pouco vivida — nasce exatamente nesse ponto de encontro entre ciência e espiritualidade: quando o sistema nervoso se regula e a consciência se expande.
Soltar, de verdade, é isso.
É não se abandonar para provar força.
É não se perder para parecer livre.
É não confundir paz com anestesia.
Talvez o convite mais honesto seja esse:
antes de soltar o outro, soltar a pressa.
Antes de se afastar, clarear.
Antes de reagir, sentir.
Porque só quem vê com clareza consegue amar sem se machucar — e sem machucar.
E isso… isso sim é força.
Fabiana de Bom - Novo Olhaar!
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